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IA & Gestão3 min de leitura

A era das consultorias e a IA

A IA não vai matar a consultoria. Vai matar a parte da consultoria que já era commodity, e expor, sem anestesia, quem vendia volume de slides como se fosse critério.

Por Dorian Lacerda

Ilustração editorial sobre consultoria estratégica e inteligência artificial

A inteligência artificial não vai acabar com a consultoria. Vai acabar com a parte dela que já era commodity: coletar informação, organizar em slides e devolver uma síntese bem formatada.

Essa parte, que sustentou margens confortáveis por décadas, hoje custa o preço de uma assinatura mensal. O que sobra é a pergunta que o cliente nunca conseguiu formular sozinho, e essa parte ficou mais valiosa, não menos.

O que exatamente foi automatizado

Vale separar com precisão, porque o pânico costuma ser genérico e a realidade é bem localizada.

Foi automatizado: levantamento de mercado, benchmark de concorrentes, sumarização de entrevistas, primeira versão de modelo financeiro, redação de relatório, formatação. O que antes ocupava três analistas por seis semanas hoje ocupa um analista por três dias.

Não foi automatizado: decidir qual pergunta merece ser respondida. Perceber que o problema apresentado pelo cliente não é o problema real. Sustentar uma recomendação impopular diante de um conselho dividido. Saber, por ter visto antes, que aquele número bonito no slide 34 depende de uma premissa que ninguém testou.

A camada que sempre foi o produto

Boa consultoria nunca foi sobre informação. Foi sobre alguém de fora, com contexto suficiente e sem dependência política interna, dizendo o que as pessoas de dentro já sabiam mas não conseguiam dizer.

O valor nunca esteve no relatório. Esteve na conversa que o relatório tornava possível.

A IA torna o relatório quase gratuito. Isso deveria ser uma boa notícia para quem sempre vendeu a conversa, e é uma péssima notícia para quem vendia o peso do documento.

O risco novo: velocidade sem critério

Há um efeito colateral menos discutido. Com a produção de análise ficando barata, o volume de análise explodiu. Comitês executivos que antes recebiam um estudo por trimestre agora recebem cinco por mês, todos plausíveis, todos bem escritos, todos com aparência de rigor.

Plausibilidade não é evidência. Um texto bem construído sobre uma premissa errada é mais perigoso que um texto mal construído, porque atravessa a checagem com menos atrito.

A consequência prática: o gargalo da decisão executiva deixou de ser a falta de análise e passou a ser a capacidade de descartar análise. Isso é trabalho de critério, e critério não escala com licença de software.

O que muda para quem contrata

  • Pare de pagar por volume. Se o entregável é o número de páginas, você está comprando algo que a máquina faz melhor e mais barato.
  • Compre acesso, não documento. O que justifica o preço é o tempo de alguém experiente pensando no seu problema, não o artefato final.
  • Exija a premissa explícita. Toda recomendação deve vir com "isto só é verdade se…". Sem isso, você não está comprando análise, está comprando confiança cega.
  • Pergunte quem assina. Se ninguém coloca o nome embaixo da recomendação, ninguém está assumindo o risco dela.

O que muda para quem presta

A consultoria que sobreviver será menor, mais sênior e mais cara por hora, e mais barata por projeto, porque entregará em três semanas o que antes levava três meses. O modelo de pirâmide, com muitos juniores executando levantamento, perde a base econômica.

Não é o fim de uma indústria. É o fim de um modelo de precificação que confundia esforço com valor. A IA só tornou essa confusão insustentável.

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